
O filósofo da razão comunicativa

Jürgen Habermas faleceu em 14 de março de 2026, aos 96 anos, em sua residência em Starnberg, na Baviera.
A morte por causas naturais foi anunciada pela editora Suhrkamp Verlag, que publicou sua obra por mais de seis décadas.
Considerado o mais importante filósofo alemão da segunda metade do século XX e um dos pensadores mais citados das humanidades em todo o mundo, Habermas deixou um legado que atravessa a filosofia, a sociologia, a teoria do direito, a ciência política e os estudos de comunicação.
Sua obra central, centrada na defesa da razão comunicativa como fundamento da democracia e da emancipação humana, moldou o debate intelectual global por mais de meio século.
Num momento de crise das democracias liberais, polarização e desinformação digital, sua morte carrega peso simbólico.
Como escreveu Peter Verovšek na Social Europe, “o mundo geopoliticamente turbulento e em desintegração de hoje precisa de Habermas mais do que nunca”.
De Gummersbach a Frankfurt: uma vida moldada pela catástrofe

Friedrich Ernst Jürgen Habermas nasceu em 18 de junho de 1929, em Düsseldorf, e cresceu em Gummersbach, perto de Colônia, numa família protestante de classe média.
Seu pai, Ernst Habermas, era diretor da Câmara de Indústria e Comércio de Colônia e filiou-se ao Partido Nazista em 1933.
Nascido com fenda palatina, condição que exigiu duas cirurgias na infância, Habermas atribuiria mais tarde a essa experiência de vulnerabilidade física uma sensibilidade especial para a interdependência humana e a importância da comunicação.
Na adolescência, integrou a Juventude Hitlerista (Deutsches Jungvolk) por instigação paterna e serviu na defesa antiaérea (Flakhelfer) contra os Aliados na Linha Siegfried a partir de agosto de 1944.
O fim da guerra representou o marco decisivo de sua formação: os julgamentos de Nuremberg e os documentários sobre o Holocausto transmitiram-lhe um choque moral profundo.
“Sou eu mesmo um produto da ‘reeducação'”, declarou em entrevista de 1979.
A facilidade com que ex-nazistas retomaram posições na sociedade alemã do pós-guerra horrorizou-o e alimentou, desde cedo, sua vocação intelectual para a crítica.
Habermas estudou filosofia, história, psicologia e economia nas universidades de Göttingen (1949-1950), Zurique (1950-1951) e Bonn (1951-1954), onde doutorou-se em 1954 com uma tese sobre Schelling.
Em 1953, já como estudante, publicou um artigo no Frankfurter Allgemeine Zeitung criticando Heidegger pela referência à “verdade e grandeza internas” do nacional-socialismo, gesto que o marcou como intelectual público desde jovem.
Em 1956, tornou-se assistente de pesquisa de Theodor W. Adorno no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt.
A relação foi fecunda, mas breve: Max Horkheimer, que o considerava um “marxista perigoso”, bloqueou sua habilitação e forçou sua saída em 1959.
Habermas habilitou-se então na Universidade de Marburgo (1961), sob orientação do marxista Wolfgang Abendroth, com a tese que se tornaria Mudança Estrutural da Esfera Pública.
Ocupou cátedras em Heidelberg (1962 a 1964, a convite de Gadamer), em Frankfurt (1964 a 1971, sucedendo Horkheimer), no Instituto Max Planck em Starnberg (1971 a 1983, período em que escreveu a Teoria da Ação Comunicativa) e novamente em Frankfurt (1983 a 1994).
Após a aposentadoria, foi professor visitante permanente na Northwestern University e na New School em Nova York.
Sua vida pessoal foi marcada por perdas tardias. A filha Rebekka Habermas, historiadora em Göttingen, faleceu em dezembro de 2023. A esposa Ute Wesselhöft, com quem fora casado por 70 anos, morreu em junho de 2025. É sobrevivido pelo filho Tilmann (psicanalista) e pela filha Judith.
Seu último texto publicado, um ensaio no Süddeutsche Zeitung de 20 de novembro de 2025, intitulado Von hier an müssen wir alleine weitergehen (“A partir daqui, devemos seguir sozinhos”), versava sobre o futuro da Europa.
A arquitetura teórica: da esfera pública à razão comunicativa
Esfera pública e sua transformação estrutural

A primeira grande contribuição de Habermas, elaborada em Strukturwandel der Öffentlichkeit (1962), introduziu o conceito de esfera pública burguesa, compreendida como o espaço social onde indivíduos privados se reúnem como público para discutir racionalmente questões de interesse geral.
Essa esfera emergiu nos séculos XVII e XVIII nos cafés, salões literários e sociedades de leitura, primeiro como esfera pública literária e depois política.
Seus princípios normativos incluíam a universalidade de acesso (ao menos em princípio), a igualdade dos interlocutores independentemente de status social, e a força do melhor argumento como critério de validade.
Habermas diagnosticou sua “refeudalização” no século XX: com o entrelaçamento de Estado e sociedade no capitalismo de bem-estar social, a esfera pública deixou de ser arena de debate racional para tornar-se palco de manipulação por relações públicas e grupos de pressão, revertendo à função aclamatória típica do período feudal.
Em 2022, aos 93 anos, Habermas publicou Ein neuer Strukturwandel der Öffentlichkeit und die deliberative Politik, atualizando sua análise para a era digital e examinando como plataformas de mídia social e a fragmentação informacional ameaçam o discurso democrático.
Teoria da Ação Comunicativa
A obra-prima de Habermas, Theorie des kommunikativen Handelns (1981, dois volumes), constitui sua teoria social sistemática.
No centro está a distinção entre ação comunicativa, orientada ao entendimento mútuo (Verständigung) e na qual os participantes levantam pretensões de validade (verdade, correção normativa e sinceridade) que podem ser aceitas ou rejeitadas com base em razões, e a ação estratégica, orientada ao êxito individual e na qual os outros são tratados como meios.
A tese audaciosa de Habermas: “alcançar o entendimento é o telos inerente da fala humana”.
A ação comunicativa é a forma básica de ação social; a ação estratégica é derivativa e “parasitária” em relação a ela, pois os efeitos perlocucionários dependem essencialmente do significado ilocucionário, mas não o inverso.
A ontologia social da teoria opera em dois níveis.
O mundo da vida (Lebenswelt), compreendido como o pano de fundo de conhecimento cultural, normas sociais e competências pessoais que torna possível o entendimento mútuo, reproduz-se através da ação comunicativa em três dimensões: reprodução cultural, integração social e socialização.
O sistema, por sua vez, abrange os macroprocessos estabilizados por meios “deslinguistificados”, sobretudo o dinheiro (economia) e o poder (burocracia estatal), operando independentemente da consciência dos agentes.
O diagnóstico crítico central é a colonização do mundo da vida: quando os imperativos sistêmicos do dinheiro e do poder invadem e substituem as formas comunicativas de coordenação em domínios como família, educação e cultura, produzem-se patologias sociais como anomia, alienação, perda de solidariedade e incapacidade de responsabilização coletiva.
Razão comunicativa versus razão instrumental
Habermas contesta frontalmente a conclusão pessimista de Weber, Horkheimer e Adorno de que a racionalização moderna conduz necessariamente à dominação. Para ele, esse diagnóstico decorre de uma confusão entre racionalidade instrumental e racionalidade como tal.
Ao expandir o conceito de razão para incluir a racionalidade comunicativa, situada não na consciência individual nem na estrutura do cosmos, mas nas estruturas da comunicação linguística intersubjetiva, Habermas rompe o vínculo conceitual entre Iluminismo e dominação. A modernidade é, para ele, um “projeto inacabado”, não um beco sem saída.
Sua pragmática universal (depois renomeada “pragmática formal”) identifica os pressupostos universais da competência comunicativa: todo falante que participa de comunicação levanta necessariamente pretensões de validade à verdade, à correção normativa e à sinceridade.
Quando essas pretensões são contestadas, os participantes transitam da comunicação cotidiana ao discurso, modo reflexivo de comunicação em que pretensões disputadas são resgatadas pelo dar e receber razões.
Ética do Discurso
Articulada em Moralbewußtsein und kommunikatives Handeln (1983) e Erläuterungen zur Diskursethik (1991), a ética do discurso é uma teoria moral cognitivista, universalista e procedimental.
Seus dois princípios fundamentais são:
O Princípio de Universalização (U): “Toda norma válida deve satisfazer a condição de que as consequências e efeitos colaterais que previsivelmente resultarem de seu cumprimento geral para a satisfação dos interesses de cada um possam ser aceitas por todos os afetados.”
O Princípio do Discurso (D): “Somente podem pretender validade as normas que obtêm (ou poderiam obter) a aprovação de todos os afetados enquanto participantes de um discurso prático.”
A ética do discurso é explicitamente kantiana e deontológica, mas com uma diferença crucial: substitui o procedimento monológico do imperativo categórico, pelo qual o indivíduo sozinho universaliza suas máximas, por um procedimento dialógico e intersubjetivo. Nenhum experimento mental substitui o discurso real com todos os afetados.
Teoria do Direito e da Democracia
Em Faktizität und Geltung (1992), Habermas desenvolve sua teoria discursiva do direito e da democracia. A tese central é a co-originariedade (Gleichursprünglichkeit) entre autonomia privada (direitos individuais) e autonomia pública (autolegislação democrática): nenhuma tem prioridade sobre a outra, e ambas se pressupõem mutuamente.
Essa formulação serve de mediação entre o liberalismo, que prioriza os direitos individuais, e o republicanismo, que prioriza a soberania popular.
Habermas propõe um modelo deliberativo de democracia em dois trilhos: o trilho formal, abrangendo a deliberação institucionalizada em parlamentos, tribunais e administração, e o trilho informal, composto pelos fluxos “selvagens” de comunicação na sociedade civil, na mídia e na esfera pública.
A legitimidade democrática depende do circuito adequado entre ambos: esferas públicas informais identificam problemas e geram poder comunicativo, que é canalizado por procedimentos institucionais legítimos e convertido em poder administrativo.
As raízes intelectuais: de Kant a Mead

A obra de Habermas é notável pela amplitude e profundidade de suas fontes.
Da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer), herdou o projeto da Teoria Crítica e a crítica do positivismo, mas rejeitou o pessimismo sobre a razão.
De Kant, extraiu o foco deontológico na justiça e na universalizabilidade, transformando-o em procedimento dialógico.
De Marx, preservou a crítica da ideologia e a relação entre teoria e práxis, mas abandonou o determinismo econômico e a política revolucionária de classe.
De Weber, tomou a análise da racionalização ocidental como interlocutor central, mas contestou a redução da racionalidade à dimensão instrumental.
Do pragmatismo americano, especialmente de Peirce, Mead e Dewey, Habermas extraiu recursos decisivos.
Ele próprio declarou: “Desde o início, vi o pragmatismo americano como a terceira resposta produtiva a Hegel, após Marx e Kierkegaard, como o ramo radical-democrático do jovem hegelianismo.”
De G. H. Mead, incorporou a constituição intersubjetiva da mente e do self, ou seja, a formação da identidade pela interação social e comunicação simbólica.
De Durkheim, tomou o conceito de integração social e as raízes sagradas das normas morais.
De Kohlberg, apropriou-se da teoria do desenvolvimento moral cognitivo para fundamentar sua teoria da evolução social.
Da teoria dos atos de fala de Austin e Searle, Habermas derivou a ponte entre filosofia da linguagem e teoria social: atos ilocucionários, orientados ao entendimento, seriam o modo “originário” do uso da linguagem.
Do debate com Gadamer, reteve a natureza dialógica da linguagem, mas insistiu que a hermenêutica deve ser complementada pela reflexão crítica capaz de identificar distorções sistemáticas da comunicação.
De Parsons e Luhmann, incorporou criticamente a abordagem sistêmica, criando sua ontologia social de dois níveis.
Elogios e o reconhecimento de uma vida intelectual sem paralelo

A Stanford Encyclopedia of Philosophy afirma que “Habermas ocupa atualmente a posição de um dos filósofos mais influentes do mundo, fazendo a ponte entre as tradições continental e anglo-americana”.
A Encyclopaedia Britannica o descreve como “o mais importante filósofo alemão da segunda metade do século XX”.
Em 2007, o Times Higher Education Guide o classificou como o 7º autor mais citado nas humanidades em todo o mundo.
John Rawls, segundo relato de Cass Sunstein (Harvard Law School), chamou Habermas de “o maior teórico da democracia”.
O historiador intelectual Matthew Specter (Santa Clara University) o descreveu como “um Aristóteles ou Hegel moderno, para quem nenhum domínio da cultura ou da ciência era alheio”.
Cass Sunstein escreveu em seu tributo: “Descanse em paz, Professor Habermas. Estamos em dívida. Celebramos você. Não veremos outro igual.”
Até seus críticos mais severos reconheceram sua estatura.
Nancy Fraser abriu seu ensaio mais influente, a crítica à esfera pública, declarando que “algo como a ideia de esfera pública de Habermas é indispensável à teoria social crítica e à prática política democrática”.
O próprio Foucault chegou a afirmar: “Interesso-me pelo que Habermas está fazendo. Sei que ele não concorda com o que digo. Eu concordo um pouco mais com ele.”
Prêmios e reconhecimentos
Habermas acumulou uma lista extraordinária de distinções ao longo de sua carreira:
| Ano | Prêmio |
|---|---|
| 1976 | Prêmio Hegel (Cidade de Stuttgart) |
| 1976 | Prêmio Sigmund Freud de Prosa Acadêmica (Academia Alemã de Língua e Poesia) |
| 1980 | Prêmio Theodor W. Adorno (Cidade de Frankfurt) |
| 1986 | Prêmio Gottfried Wilhelm Leibniz (DFG — maior honraria da pesquisa alemã) |
| 1987 | Prêmio Sonning (Dinamarca) |
| 2001 | Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão (Friedenspreis des Deutschen Buchhandels) |
| 2003 | Prêmio Príncipe das Astúrias em Ciências Sociais |
| 2004 | Prêmio Kyoto em Artes e Filosofia |
| 2005 | Prêmio Holberg (Noruega) |
| 2013 | Prêmio Erasmo (Países Baixos) |
| 2015 | Prêmio Kluge (Biblioteca do Congresso dos EUA, compartilhado com Charles Taylor) |
| 2022 | Pour le Mérite para Ciências e Artes (Alemanha) |
| 2024 | Prêmio Johan Skytte em Ciência Política |
Em 2021, aceitou inicialmente o Sheikh Zayed Book Award dos Emirados Árabes Unidos, mas recusou-o publicamente, citando preocupações com o sistema político e os direitos humanos no país, gesto coerente com décadas de engajamento público.
As críticas: do pós-modernismo ao feminismo e ao agonismo

Lyotard e a incredulidade diante das metanarrativas
Jean-François Lyotard, em A Condição Pós-Moderna (1979), definiu o pós-moderno como “incredulidade diante das metanarrativas” e enquadrou Habermas como autor de mais uma metanarrativa, uma “narrativa geral e abstrata de emancipação”.
Lyotard rejeitou a premissa de que a comunicação intersubjetiva implica regras já acordadas e que o consenso universal é o objetivo do discurso.
Em vez disso, enfatizou o dissenso, os jogos de linguagem e os movimentos agonísticos.
Habermas respondeu em O Discurso Filosófico da Modernidade (1985), classificando os pós-modernistas como neoconservadores que abandonam os instrumentos racionais necessários à crítica social.
Foucault e o entrelaçamento entre poder e saber
O debate Foucault-Habermas opõe a “analítica do poder” foucaultiana à racionalidade comunicativa habermasiana.
Para Foucault, a razão está entrelaçada com o poder e não constitui um ponto de vista neutro para a crítica.
Habermas dedicou dois capítulos de O Discurso Filosófico da Modernidade a Foucault, acusando-o de: (1) promover uma “crítica totalizante” que reduz a complexidade social a relações de poder onipresentes; (2) cometer uma contradição performativa, pois a crítica genealógica depende implicitamente das pretensões de validade racional que busca historicizar; e (3) abandonar fundamentos normativos para a crítica, arriscando um “decisionismo irracional”.
Os dois nunca debateram pessoalmente. Planejavam um colóquio conjunto sobre “O que é o Iluminismo?” de Kant, em Berkeley, em 1984, mas Foucault morreu antes que pudesse ocorrer.
Derrida e a desconstrução
Habermas acusou Derrida de “nivelar a distinção de gênero entre filosofia e literatura”, minando a razão argumentativa.
Derrida respondeu que Habermas o havia lido mal, ou talvez nem o tivesse lido. Uma reaproximação, contudo, ocorreu no final dos anos 1990, e após os ataques de 11 de setembro de 2001, ambos publicaram conjuntamente sobre solidariedade europeia e oposição à Guerra do Iraque, no volume Filosofia em Tempo de Terror (org. Giovanna Borradori, 2003).
Apesar do terreno político comum, as diferenças filosóficas nunca foram plenamente resolvidas.
Rorty e o anti-fundacionalismo pragmatista
Richard Rorty, partilhando dos compromissos democráticos de Habermas, desafiou seus fundamentos teóricos de uma posição pragmatista e anti-fundacionalista. Rorty caracterizou Habermas como “um liberal que não quer ser um ironista” e argumentou que pretensões a “situações ideais de fala” ou normas universalmente válidas são apelos disfarçados ao que um grupo particular considera melhores razões. Propôs dissociar o anti-autoritarismo do Iluminismo de seu racionalismo. Apesar das divergências, formaram o que foi descrito por contemporâneos como “uma verdadeira amizade intelectual”.
Honneth e a teoria do reconhecimento
Axel Honneth, aluno e sucessor de Habermas em Frankfurt, desenvolveu sua teoria do reconhecimento como continuação crítica e transformação da razão comunicativa.
Criticou Habermas em três frentes: o apelo a condições universais do uso da linguagem seria insuficiente, pois não se conecta com motivações pré-teóricas para a mudança social; as patologias de poder estariam circunscritas a sistemas normativamente livres (mercado e Estado), oferecendo uma visão do mundo da vida “livre de poder”; e o papel do trabalho como lugar de reconhecimento e luta social seria subestimado.
Em A Luta por Reconhecimento (1992), Honneth propôs três esferas (amor, direitos e estima) como concepção formal da vida boa.
Benhabib e a crítica feminista
Seyla Benhabib, em Situating the Self (1992) e em ensaios anteriores, distinguiu entre o “outro generalizado” (pessoas vistas como portadoras abstratas de direitos iguais, perspectiva privilegiada pela ética do discurso de Habermas) e o “outro concreto” (indivíduos situados, com histórias, necessidades e identidades corporificadas particulares).
Argumentou que a ética do discurso torna invisíveis as experiências de cuidado, dependência e corporalidade generificada. Propôs um “universalismo interativo” em contraposição ao “universalismo substitucionista” de Habermas.
Fraser e os contrapúblicos subalternos
Nancy Fraser, no ensaio seminal “Rethinking the Public Sphere” (Social Text, 1990), levantou quatro críticas fundamentais à concepção habermasiana.
Em primeiro lugar, a esfera pública burguesa foi constituída por exclusões significativas de gênero, raça e classe, sendo descrita como “campo de treinamento e base de poder de um estrato de homens burgueses”.
Em segundo lugar, o “parêntese” das desigualdades favorece sistematicamente os grupos dominantes.
Em terceiro lugar, existem contrapúblicos subalternos, compreendidos como “arenas discursivas paralelas onde membros de grupos sociais subordinados inventam e circulam contradiscursos”, o que refuta a preferência por uma esfera pública única e unificada.
Em quarto lugar, a distinção entre públicos “fracos” (formadores de opinião) e “fortes” (tomadores de decisão) exige formas híbridas, não a separação rígida entre sociedade civil e Estado.
Mouffe e a democracia agonística
Chantal Mouffe ofereceu uma crítica sistemática em “Deliberative Democracy or Agonistic Pluralism?” (1999).
Argumentou que Habermas e Rawls buscam fundamentar a adesão à democracia liberal num tipo de acordo racional que excluiria a possibilidade de contestação, relegando o pluralismo ao domínio não público.
Para Mouffe, o pluralismo de valores é irredutível e a adesão à democracia se baseia em paixões e emoções, não apenas na racionalidade.
Propôs transformar o antagonismo (inimigos) em agonismo (adversários), concebendo a esfera pública como “campo de batalha onde projetos hegemônicos se confrontam, sem nenhuma possibilidade de reconciliação final”.
Impacto que atravessa disciplinas e fronteiras

O legado intelectual de Habermas é transdisciplinar por natureza.
Na filosofia política, ele é, ao lado de Rawls, um dos dois fundadores da tradição da democracia deliberativa.
Sua teoria influenciou uma vasta subárea acadêmica e práticas reais como assembleias cidadãs, orçamento participativo e sondagens deliberativas (James Fishkin, Amy Gutmann, Dennis Thompson, Joshua Cohen).
O conceito de patriotismo constitucional, compreendido como lealdade política centrada em princípios constitucionais compartilhados e não em identidade étnica ou cultural, tornou-se central nos debates sobre identidade europeia e integração pós-nacional.
Na teoria do direito, Entre Facticidade e Validade influenciou juristas como Robert Alexy (teoria da argumentação jurídica), Frank Michelman e Klaus Günther.
Na sociologia, a distinção sistema/mundo da vida e a tese da colonização tornaram-se ferramentas analíticas fundamentais para compreender a modernização.
Nos estudos de mídia e comunicação, o conceito de esfera pública é possivelmente a categoria normativa mais influente da disciplina, presente desde Craig Calhoun até os debates contemporâneos sobre plataformas digitais e desinformação.
Nas relações internacionais, sua teoria cosmopolita e a defesa do fortalecimento do direito internacional influenciaram o campo da governança global.
Como intelectual público, Habermas interveio decisivamente em momentos cruciais da história alemã e europeia: no Historikerstreit (1986 a 1987), denunciou o revisionismo histórico sobre o passado nazista; nos debates sobre a reunificação alemã (1989 a 1990); na oposição à Guerra do Iraque (2003, conjuntamente com Derrida); no diálogo sobre fé e razão com o Cardeal Ratzinger (2004); nas crises da zona do euro; e, em seu último ensaio publicado, no futuro da Europa diante dos desenvolvimentos nos Estados Unidos.
“Sua voz fará falta”: as reações ao falecimento

A notícia da morte de Habermas repercutiu globalmente em questão de horas.
O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, declarou em carta de condolências: “Com Jürgen Habermas perdemos um grande pensador iluminista que atravessou as contradições da modernidade. Ele nos ensinou o ethos do discurso democrático.”
O chanceler Friedrich Merz afirmou: “Alemanha e Europa perderam um dos pensadores mais significativos do nosso tempo. Sua acuidade analítica moldou o discurso democrático muito além das fronteiras do nosso país e serviu como farol num mar tempestuoso.”
A Universidade Goethe de Frankfurt, onde Habermas lecionou por décadas, publicou extenso comunicado destacando que “as contribuições de Habermas a uma teoria filosófica da razão comunicativa, aos fundamentos da liberdade racional e da justiça social, à normatividade e institucionalização do direito, e ao papel da religião em sociedades seculares e pluralistas inspiraram recepção mundial e debates vibrantes”.
A editora Suhrkamp, por meio de seu diretor Jonathan Landgrebe, declarou que a obra de Habermas, “publicada pela Suhrkamp desde os anos 1960 e traduzida para mais de 40 idiomas, continua a ressoar mundialmente”.
Obituários extensos foram publicados no The Guardian, The New York Times, NPR, BBC, Reuters, Foreign Policy, Jacobin, Le Temps, La Libre Belgique, France 24, Euronews, ZDF, Hessenschau, entre dezenas de outros veículos. O blog acadêmico Daily Nous compilou uma lista abrangente de tributos de filósofos de todo o mundo.
Conclusão: o projeto inacabado permanece inacabado

Habermas dedicou sete décadas a defender uma tese ao mesmo tempo simples e radical: a razão humana não se esgota no cálculo instrumental, ela se realiza plenamente na comunicação orientada ao entendimento mútuo.
Dessa intuição básica, derivou uma arquitetura teórica de ambição enciclopédica: uma teoria da linguagem, uma teoria da ação social, uma teoria moral, uma teoria do direito e uma teoria da democracia, todas interconectadas e informadas por um diálogo incessante com praticamente toda a tradição filosófica ocidental.
Suas limitações foram rigorosamente identificadas por críticos: o idealismo comunicativo que subestima assimetrias de poder, a tendência ao consenso que marginaliza o dissenso produtivo, as exclusões implícitas em seu modelo de esfera pública.
Ao contestá-lo, esses críticos expandiram e enriqueceram o campo que ele ajudou a criar.
O fato de que virtualmente toda crítica relevante ao seu pensamento opere dentro de um horizonte conceitual que ele mesmo contribuiu para definir é, talvez, a medida mais precisa de sua influência.
Num mundo onde a desinformação digital ameaça os pressupostos básicos do debate público, onde autocracias avançam sobre democracias enfraquecidas e onde a própria ideia de verdade compartilhada parece em crise, a insistência habermasiana de que a democracia vive pela conversação, pela disposição de ouvir, trocar argumentos e buscar a verdade conjuntamente, permanece não apenas relevante, mas urgente.
A modernidade continua sendo, como ele nunca deixou de afirmar, um projeto inacabado.
Obras principais de Jürgen Habermas (seleção cronológica)
| Ano | Título original (alemão) | Tradução para o inglês |
|---|---|---|
| 1962 | Strukturwandel der Öffentlichkeit | The Structural Transformation of the Public Sphere (MIT Press, 1989) |
| 1963 | Theorie und Praxis | Theory and Practice (Beacon Press, 1973) |
| 1968 | Erkenntnis und Interesse | Knowledge and Human Interests (Beacon Press, 1972) |
| 1973 | Legitimationsprobleme im Spätkapitalismus | Legitimation Crisis (Beacon Press, 1975) |
| 1976 | Zur Rekonstruktion des Historischen Materialismus | Communication and the Evolution of Society (Beacon Press, 1979) |
| 1981 | Theorie des kommunikativen Handelns (2 vols.) | The Theory of Communicative Action (Beacon Press, 1984/1987) |
| 1983 | Moralbewußtsein und kommunikatives Handeln | Moral Consciousness and Communicative Action (MIT Press, 1990) |
| 1985 | Der philosophische Diskurs der Moderne | The Philosophical Discourse of Modernity (MIT Press, 1987) |
| 1988 | Nachmetaphysisches Denken | Postmetaphysical Thinking (MIT Press, 1994) |
| 1991 | Erläuterungen zur Diskursethik | Justification and Application (MIT Press, 1993) |
| 1992 | Faktizität und Geltung | Between Facts and Norms (Polity Press, 1996) |
| 1996 | Die Einbeziehung des Anderen | The Inclusion of the Other (MIT Press, 1998) |
| 1998 | Die postnationale Konstellation | The Postnational Constellation (MIT Press, 2001) |
| 2001 | Die Zukunft der menschlichen Natur | The Future of Human Nature (Polity Press, 2003) |
| 2005 | Zwischen Naturalismus und Religion | Between Naturalism and Religion (Polity Press, 2008) |
| 2019 | Auch eine Geschichte der Philosophie (2 vols., 1.752 pp.) | Also a History of Philosophy (Polity Press, 3 vols.) |
| 2022 | Ein neuer Strukturwandel der Öffentlichkeit | A New Structural Transformation of the Public Sphere (Polity Press, 2023) |
Fontes consultadas
Enciclopédias e referências acadêmicas
FINLAYSON, James Gordon. Jürgen Habermas. Stanford Encyclopedia of Philosophy, revisado em set. 2023. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/habermas/
CHEREM, Max. Habermas, Jürgen. Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https://iep.utm.edu/habermas/
JAY, Martin. Jürgen Habermas. Encyclopaedia Britannica, atualizado em 15 mar. 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Jurgen-Habermas
JÜRGEN HABERMAS. Wikipedia, the free encyclopedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Jürgen_Habermas
JÜRGEN HABERMAS: Biography. Contemporary Thinkers / Library of Congress. Disponível em: https://contemporarythinkers.org/jurgen-habermas/biography/
JÜRGEN HABERMAS Biography. EBSCO Research Starters. Disponível em: https://www.ebsco.com/research-starters/biography/jurgen-habermas
Obituários e tributos (imprensa internacional)
JEFFRIES, Stuart. Jürgen Habermas obituary. The Guardian, 16 mar. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/mar/16/jurgen-habermas-obituary
BECKERMAN, Gal. Jürgen Habermas, philosopher and public intellectual, dies at 96. The New York Times, 14 mar. 2026.
ACCLAIMED 20th century philosopher Jürgen Habermas dies at 96. NPR, 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.npr.org/2026/03/14/nx-s1-5748043/jurgen-habermas-obituary-dead-96-german-philosopher
HABERMAS, the philosopher who shaped Germany’s post-war conscience. Reuters (via US News), 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.usnews.com/news/world/articles/2026-03-14/juergen-habermas-philosopher-dies-at-age-96-publisher-says
INFLUENTIAL German philosopher Jürgen Habermas dies at 96. Associated Press (via PBS), 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.pbs.org/newshour/world/influential-german-philosopher-jurgen-habermas-dies-at-96
OBITUARY: Jürgen Habermas was the last rationalist. Foreign Policy, 16 mar. 2026. Disponível em: https://foreignpolicy.com/2026/03/16/jurgen-habermas-democracy-reason-enlightment-law-deliberation-philosophy/
JÜRGEN Habermas showed what philosophy could be. Jacobin, 15 mar. 2026. Disponível em: https://jacobin.com/2026/03/habermas-obituary-critical-theory-philosophy
ROGAL, Andreas. Eminence grise of German philosophy Jürgen Habermas dead at 96. Euronews, 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.euronews.com/2026/03/14/jurgen-habermas-one-of-germanys-leading-philosophers-dies
DÉCÈS de Jürgen Habermas, grand penseur de deux siècles. Le Temps, 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.letemps.ch/culture/livres/deces-de-jurgen-habermas-grand-penseur-de-deux-siecles
JÜRGEN Habermas, l’un des philosophes les plus influents au monde, est décédé. La Libre Belgique, 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.lalibre.be/international/europe/2026/03/14/jurgen-habermas-lun-des-philosophes-les-plus-influents-au-monde-est-decede-a-lage-de-96-ans-JCDKF7PWQVDZ7FLMGB2ZDSSSPU/
MUERE Jürgen Habermas, el filósofo que marcó el debate público de la Alemania de posguerra. France 24, 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.france24.com/es/europa/20260314-muere-jürgen-habermas
MUERE el filósofo y sociólogo Jürgen Habermas. Infobae España, 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.infobae.com/espana/cultura/2026/03/14/muere-el-filosofo-y-sociologo-jurgen-habermas
JÜRGEN Habermas: Philosoph im Alter von 96 Jahren gestorben. ZDF Heute, 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.zdfheute.de/panorama/prominente/juergen-habermas-tot-philosoph-soziologe-100.html
PHILOSOPH Jürgen Habermas ist gestorben. Hessenschau, 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.hessenschau.de/kultur/philosoph-juergen-habermas-ist-gestorben-v5,juergen-habermas-verstorben-100.html
Tributos acadêmicos e de intelectuais
VEROVŠEK, Peter J. Jürgen Habermas shaped the postwar order — his death must not mark its end. Social Europe, mar. 2026. Disponível em: https://www.socialeurope.eu/jurgen-habermas-shaped-the-postwar-order-his-death-must-not-mark-its-end
SUNSTEIN, Cass. On the death of Jurgen Habermas. Substack, mar. 2026. Disponível em: https://casssunstein.substack.com/p/on-the-death-of-jurgen-habermas
JÜRGEN Habermas (1929-2026). Daily Nous, 14 mar. 2026. Disponível em: https://dailynous.com/2026/03/14/jurgen-habermas-1929-2026/
GOETHE UNIVERSITY FRANKFURT. Goethe University mourns the death of Jürgen Habermas. EurekAlert!, mar. 2026.
AFTER reason, what remains? The death of Jürgen Habermas and his unfinished dialogue with faith. ZENIT, 16 mar. 2026. Disponível em: https://zenit.org/2026/03/16/after-reason-what-remains-the-death-of-jurgen-habermas-and-his-unfinished-dialogue-with-faith/
Obras e debates críticos citados
FRASER, Nancy. Rethinking the public sphere: a contribution to the critique of actually existing democracy. Social Text, Durham, n. 25/26, p. 56-80, 1990.
MOUFFE, Chantal. Deliberative democracy or agonistic pluralism? Social Research, New York, v. 66, n. 3, p. 745-758, 1999.
BENHABIB, Seyla. Situating the self: gender, community and postmodernism in contemporary ethics. New York: Routledge, 1992.
HONNETH, Axel. The struggle for recognition: the moral grammar of social conflicts. Cambridge: MIT Press, 1995. (Original alemão: 1992).
THOMASSEN, Lasse (org.). The Derrida-Habermas reader. Chicago: University of Chicago Press, 2006.
RORTY, Richard. Habermas and Lyotard on postmodernity. Praxis International, v. 4, n. 1, p. 32-44, 1984.
BORRADORI, Giovanna (org.). Philosophy in a time of terror: dialogues with Jürgen Habermas and Jacques Derrida. Chicago: University of Chicago Press, 2003.
SCHEUERMAN, William. Habermas and the fate of democracy. Boston Review. Disponível em: https://www.bostonreview.net/articles/william-e-scheuerman-habermas-and-fate-democracy/
Prêmios (páginas oficiais)
SIGMUND Freud Prize: Jürgen Habermas (1976). Deutsche Akademie für Sprache und Dichtung. Disponível em: https://www.deutscheakademie.de/en/awards/sigmund-freud-preis/juergen-habermas
PEACE PRIZE of the German Book Trade: Jürgen Habermas (2001). Disponível em: https://www.friedenspreis-des-deutschen-buchhandels.de/en/the-prizewinners/2000-2009/juergen-habermas
JÜRGEN Habermas awarded the 2024 Johan Skytte Prize in Political Science. Skytte Prize. Disponível em: https://www.skytteprize.com/news/jürgen-habermas-awarded-the-2024-johan-skytte-prize-in-political-science
BIBLIOGRAPHY of Jürgen Habermas 1951-2025. Habermas Forum. Disponível em: https://www.habermasforum.dk/works-by-habermas/bibliography-of-jurgen-habermas-1952-2020
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